Bomba de hidrogênio x bomba atômica: qual a diferença

A bomba atômica tira sua energia da quebra de átomos pesados. A bomba de hidrogênio tira a maior parte da fusão de átomos leves, e precisa de uma bomba atômica dentro dela para começar. Essa é a resposta curta. A diferença prática está na potência: as duas bombas usadas na guerra em 1945 liberaram 15 e 21 quilotons, enquanto a primeira bomba de hidrogênio, testada sete anos depois, liberou 10.400 quilotons.

Bomba atômica (fissão)Bomba de hidrogênio (termonuclear)
ReaçãoNúcleos pesados se dividem em cadeiaNúcleos leves se fundem, com muita fissão junto
CombustívelUrânio-235 ou plutônio-239Deutereto de lítio e trítio, com um gatilho de fissão
Como começaExplosivos comuns montam uma massa críticaUma bomba atômica (o primário) acende o estágio de fusão
Potência típicaDe 1 a dezenas de quilotons; o maior teste teve 500 ktDe centenas de quilotons a megatons; 50 Mt testados
Primeiro testeTrinity, julho de 1945Ivy Mike, novembro de 1952
Uso em guerraHiroshima e NagasakiNunca
A bomba atômica Little Boy em seu berço de transporte
Little Boy, a bomba de urânio do tipo canhão lançada sobre Hiroshima. Três metros de comprimento, cerca de 4,4 toneladas, 15 quilotons. Foto: US Department of Energy

Dividir e fundir

Quando um nêutron atinge um núcleo de urânio-235 ou de plutônio-239, o núcleo se parte em dois fragmentos mais leves e solta dois ou três nêutrons novos. Com material suficiente e bem compactado, esses nêutrons dividem outros núcleos, e o número de fissões dobra a cada centésimo de microssegundo, mais ou menos. Toda a liberação de energia leva menos de um milionésimo de segundo.

A fusão faz o caminho inverso. Núcleos de hidrogênio pesado, deutério e trítio, são forçados a se juntar em hélio, e a massa perdida no processo vira energia. Quilo por quilo, a fusão de deutério com trítio libera umas quatro vezes mais energia que a fissão do urânio. O problema é a temperatura: dezenas de milhões de graus, que nenhum explosivo químico consegue gerar.

Diagrama comparando fissão e fusão nuclear
A fissão parte um núcleo pesado. A fusão junta dois leves. Nos dois casos, uma pequena quantidade de massa vira uma grande quantidade de energia.

Por que a bomba de hidrogênio carrega uma bomba atômica

Na prática, só uma explosão de fissão consegue produzir o calor necessário para a fusão. No projeto de dois estágios criado por Edward Teller e Stanisław Ulam em 1951, uma bomba de fissão chamada primário explode primeiro. Seus raios X, na velocidade da luz, inundam o invólucro e comprimem o segundo estágio antes que a explosão despedace a arma. O combustível comprimido se inflama.

O secundário fica envolto em urânio, e a enxurrada de nêutrons rápidos da fusão divide esse urânio também. Em muitas armas termonucleares, cerca de metade da potência total vem dessa última etapa de fissão. O nome bomba de hidrogênio, portanto, só é meio verdadeiro: é uma bomba de fissão, fusão e fissão.

Esquema de uma arma termonuclear de dois estágios
O arranjo de dois estágios: o primário numa ponta, o secundário de fusão na outra, dentro de um invólucro que conduz os raios X.

De 1945 a 1952

A bomba de fissão nasceu do Projeto Manhattan, durante a guerra. Hiroshima foi destruída por um projeto de urânio do tipo canhão que nunca tinha sido testado; Nagasaki, por uma bomba de implosão de plutônio igual ao artefato de Trinity. Depois da guerra as bombas de fissão cresceram rápido, mas bateram num teto: quanto mais material físsil numa só arma, mais difícil é evitar que ele reaja antes da hora. A maior bomba de fissão pura já testada, Ivy King, em 1952, chegou a 500 quilotons.

Duas semanas antes, os Estados Unidos haviam testado Ivy Mike, um aparelho refrigerado de 74 toneladas cheio de deutério líquido. Ele produziu 10,4 megatons e apagou uma ilha do mapa. Em dois anos o combustível líquido deu lugar ao deutereto de lítio sólido, e a bomba de hidrogênio passou a caber num avião. Uma arma soviética de dois estágios de verdade veio em 1955, a britânica em 1957, a chinesa em 1967 e a francesa em 1968.

O artefato termonuclear Ivy Mike no prédio do teste
O artefato Ivy Mike, apelidado de Sausage, antes do teste em Enewetak em 1952. Seu combustível precisava ficar a 250 graus negativos. Foto: US Department of Energy

O que está nos arsenais hoje

Quase todas as ogivas estratégicas dos Estados Unidos, da Rússia, do Reino Unido, da França e da China são termonucleares. Além da potência bruta, o projeto tem outra vantagem: é eficiente. Uma ogiva moderna de dois estágios com algumas centenas de quilos rende várias centenas de quilotons, o que permite a um só míssil levar várias delas. As armas de fissão pura continuam sendo o ponto de partida de novos países nucleares, e os primários das ogivas modernas são, eles mesmos, artefatos de fissão reforçados por uma pequena carga de gás de deutério e trítio.

Potência de explosões famosas de fissão e termonucleares
Explosões famosas de fissão e termonucleares na mesma escala. Cada marca do eixo vale dez vezes a anterior.

Confusões comuns

Bomba nuclear e bomba atômica são a mesma coisa? Arma nuclear abrange os dois tipos. Bomba atômica costuma designar as armas de fissão.

A bomba de hidrogênio é mais radioativa? Não necessariamente. A precipitação depende sobretudo de quanta fissão acontece e de a bola de fogo tocar ou não o chão. Um projeto limpo, com pouco urânio no secundário, gera menos precipitação por quiloton; uma explosão potente na superfície gera muita.

Dá para fazer uma bomba de hidrogênio do tamanho que se quiser? Em princípio, os estágios podem ser encadeados; a Tsar Bomba soviética tinha três e foi projetada para 100 megatons. Na prática não há uso militar para uma arma assim, como mostra a história da Tsar Bomba.

Para comparar os dois tipos no mapa, escolha a Little Boy e depois uma ogiva moderna de 800 quilotons no simulador. Os detalhes de cada projeto estão em como funcionam as armas nucleares.